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Publicado: Quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A arte de disseminar Amor e Dor

Crédito: APCRC A arte de disseminar Amor e Dor

Tudo muda. Por mais que desejemos que algumas coisas ou acontecimentos ou situações permaneçam, tudo muda. É a própria dinâmica da vida. Nascemos pequenos, filhotes, indefesos, e vamos crescendo e mudando, mudando todos os dias, a cada nova vivência, a cada grito de dor, a cada nova esperança. A mudança é parte integrante da vida em sua plenitude. Todavia, a mudança não precisa representar algo negativo.

 

Todos os dias estamos em constante movimento e interagindo e sentindo tudo ao nosso redor. A vida nos apresenta algumas escolhas diante das relações que vivenciamos dia após dia e compete a cada um de nós decidir o caminho que desejamos trilhar nessa experiência que é viver.

 

Diante da dor, podemos escolher seguir ou esmorecer. Diante da mão estendida, podemos agarrar ou estapear. Diante do amor, podemos nos entregar ou recuar. Podemos escolher retribuir carinho com rancor ou cuidados com desdém. As escolhas são sentidas e partilhadas e receberemos de volta, quase sempre, o que disseminarmos. Pode até parecer frase de traseira de caminhão, no entanto, já está mais do que esclarecido que quando optamos por dar um tapa na face de alguém, provavelmente receberemos de volta um tapa com igual potência. E por que fazemos isso sabendo das possíveis e prováveis consequências?

 

Falta-nos reflexão? Espaço de tempo para processar os eventos diários e depois reagir? O que carecemos quando o assunto é a relação com o outro?

 

Talvez falte-nos o entendimento de que sendo animais gregários precisamos do “outro” para existir no mundo, dando-nos referência e consciência de existência. Não existimos como espécie sozinhos, isolados. A evolução humana se deu justamente por essa interessante característica social.

 

As organizações sociais humanas e toda a carga emocional e psíquica oriundas delas criaram as bases de tudo que nos constitui hoje como uma espécie capaz de amar e dar sentidos multifacetados e metafísicos à vida. A árvore estaria aí, incólume, existindo, com ou sem humanos, porém a espécie humana desenvolveu uma nova capacidade, habilidade, inteligência, ou até mesmo instintos diferenciados de sobrevivência no mundo: criamos o sentido das coisas. E assim, uma árvore não é mais só uma árvore, ela passa a ser algo além da vida, recheada de novos significados simbólicos, representando a ideia de mundo de corpos complexos e repletos de uma intensidade passional, transbordando em amor e dor.

 

A vida está aí, com ou sem tempo, independentemente de calendários ou significados sobrenaturais, ela apenas está no mundo. As relações são vitais e intrínsecas à nossa espécie e a escolha da direção que iremos encaminhar tais vivências coletivas depende do torpor interno que nos habita. Projetamos e identificamos no outro nossas dores, amores, angústias, sonhos, o tempo todo. Fica muito mais palatável e fácil de observar quando aquilo que nos habita está refletido em um outro alguém. O problema dessa equação é quando deixamos de exercitar a autorreflexão rumo a um entendimento de nossas próprias necessidades e sentimentos. Projetamos no outro aquilo que não queremos entender ou lidar sobre nós e, desse modo, interrompemos nosso desenvolvimento pessoal.

 

A projeção retira de nós os elementos ou características pessoais e assim não precisaremos mais refletir sobre elas ou colocá-las em evidência para quem sabe promovermos mudanças significativas em nossas vidas.  Por isso da relevância do exercício da autorreflexão, pois insere-nos na realidade de nossas necessidades versus os medos e aflições que surgem desse reconhecimento no processo. A autorreflexão promove um maior conhecimento sobre nós mesmos e nos ajuda a reconhecer no outro os elementos que nos atraem que vão além de nosso próprio reflexo.

 

A arte de cultivar amor e dor perpassa pela ideia do conhecimento e abertura sobre como entendemos o mundo e as relações que nos constituem. Ao invés de projetar, podemos transbordar no outro amor, e dor, construindo alicerces mais sólidos de um relacionamento de fato colaborativo e consensual.

 

A escolha do rancor ou da carícia diz um pouco sobre nós e o estado em que nos encontramos nessa etapa de nossas vidas. O quanto o rancor nos consumiu a ponto de não conseguirmos enxergar o prazer de uma carícia? Qual nosso papel no sucesso ou fracasso de um relacionamento? Qual o caminho você deseja trilhar? Do amor ou da dor? Escolhas difíceis e necessárias, somente possíveis através do exercício da autorreflexão.

 

É vital pensar. Milhares e milhares de anos evolutivos para chegarmos num estágio de potencial reflexivo que está escoando pelo ralo da violência gratuita, pelo lodo da indiferença e pela lâmina do desrespeito. Vamos usar nossa estrutura cerebral para construirmos interações mais pautadas pela compreensão de que o diferente não nos ameaça e sim insere novas nuances e desafios à uma existência ilimitada. Vamos refletir a vida e as relações e escolher mais amor do que dor, sempre no entendimento de que a dor também faz parte de qualquer ideia de desenvolvimento saudável. Veja que não estou propondo excluir um em detrimento do outro, mas sim entender que no amor sempre vai existir uma dor, que é essa própria dor da existência nossa de cada dia. 

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A vida nossa de cada dia

Ana Paula Cavalheiro

Ana Paula Cavalheiro

Formada em Ciências Sociais pela USP-SP e em Psicologia pela Unimep. Cursando Especialização em Psicopedagogia.

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